musicareal

«Information is not knowledge/ Knowledge is not wisdom/ Wisdom is not truth/ Truth is not beauty/ Beauty is not love/ Love is not music/ Music is THE BEST...» Frank Zappa

segunda-feira, outubro 12, 2009

Diana Krall - A case of you

O momento alto da noite, para mim, foi uma versão (muito mais bem conseguida do que esta que vos trago aqui) deste clássico da Joni Mitchell. Apreciem.

Diana Krall no Rosa Mota 11-10-2009


Uma noite de música excelente no pior local possível. O pavilhão Rosa Mota é inapropriado para concertos da dimensão sonora dos da Diana Krall. Mas falemos de música: o concerto agradou-me muito. Entraram alegres sorridentes cheios de vontade de fazer música. Cansados de músicos de cara fechada e cheios de manias depressivas andamos todos. A voz cinzenta e granulada da Diana enfeitiçou o público que se esqueceu onde estava sentado (àquelas coisas nem posso chamar cadeiras). Alternando ritmo, swing, balada e conversa amena com o público (ficamos a saber que o marido está na Tasmânia e que a mãe lhe fez um vestido aos 16 anos para ir a um concerto do Óscar Peterson com a Ella Fritzgerald) as quase duas horas de espectáculo voaram. Muito bem acompanhada pelo Anthony Wilson de sempre cujos solos nem sempre eram perceptíveis na totalidade (é o que dá tocar com palheta, as notas não «palhetadas» perdem-se devida à equalização). Na bateria um miúdo excelente Kareem Wiggins (irrequieto, calmo, seguro, inventivo), e um senhor imponente no contrabaixo, Benjamin Wolf (já repararam que o contrabaixo ao vivo é o melhor instrumento em palco e nas gravações se perde na produção? Mistério que a minha ignorância não entende.). O concerto pecou pelo encore fraquinho… as brasileiradas não agradam, muito menos com um sotaque inglês. Nem a Diana escapa a esse horror que é ouvir um falante anglófono a cantar em português do Brasil (lembram-se do Kurt Elling a cantar a Luísa do Jobim? É de fugir, e ele é simplesmente a melhor voz masculino viva – se exceptuarmos o Bennett). Bem, em resumo, se esquecer que esperava uma terceira canção no encore, tenho que reconhecer que foi uma noite de excelente música. A companhia também era agradável, e nem uma dor de costas que teima em não desaparecer me fará esquecer os bons momentos dessa noite.

domingo, julho 05, 2009

Tortoise - Beacons of ancestorship

Álbum duro, áspero, agreste. Muito diferente do It’s All Around You. Mesmo pela artwork dos dois álbuns se pode avaliar essa diferença. O It’s… tinha um trabalho artístico muito colorido, luminoso e a música acompanhava esse espírito, com bastantes linhas melódicas a acompanhar as sequências harmónicas sempre imprevisíveis. Neste novo álbum não existe essa ênfase na melodia. É um álbum seco, nesse aspecto. A artwork da capa mostra bem o conteúdo musical, linhas pretas em fundos brancos, com ênfase no fundo branco e não nas ideias melódicas apresentadas, que nunca são muito desenvolvidas. «Northern Something», «Penumbra», «Gigantes» são exemplo disso. «High Class Slim Came Floatin' In» e «Prepare your coffin» abrem o álbum e ainda fazem lembrar os cânones Tortoise, mas o resto do álbum é claramente inovador, mesmo para uma linguagem tão diversificada e eclética como sempre foi a destes Americanos de Chicago.
A ler na net: Análise do álbum (bem melhor que esta) de Nuno Proença no Bodyspace, entrevista a Doug McCombs tb no Bodyspace

sábado, junho 06, 2009

Keith Jarrett Trio - Yesterdays

Delicio-me com «yesterdays» de Jarrett. O ano de 2001 foi mesmo Vintage. As últimas edições dele a solo ou em trio são quase todas desse ano, e que ano...
Para uma previsão do que ganham ao ouvir estas pérolas siga até aqui.

quinta-feira, maio 14, 2009

Steve Vai - For the love of God

a maioria das tentativas de associar uma orquestra à guitarra eléctrica/música rock não são bem sucedidas. Aliás são mesmo insuportáveis (penso nos Metallica, por exemplo). Por vezes a orquestra imita os teclados que por sua vez (na música rock) tentam imitar as texturas orquestrais... dá cá um feedback conceptual!
Este exemplo que vos deixo parece-me ser ... pelo menos suportável. Para mim que estou apaixonado por esta canção vai para vinte anos, este é um exemplo feliz dessa ligação entre dois mundo musicais diferentes.


segunda-feira, janeiro 19, 2009

Fazer é sempre urgente!

Há momentos em que temos a certeza que a vida urge. Há notícias como esta que nos relembram que tudo o que pretendemos fazer é urgente. O ócio, a preguiça, até o descanso, são desperdícios desta bênção enigmática que é a vida.
Façam!

quinta-feira, dezembro 25, 2008

Dream Theater e Keith Jarrett

Natal é hoje! Acordei com Chaos in Motion dos Dream Theater!!! Podendo parecer um pouco esquizofrénico devo admitir que estes mesmos neurónios que estão a adorar esse caos em movimento estão ansiosos por um cd que só aparece no mercado a 26 de Janeiro. Conferir aqui a capa e a lista de temas e aqui algumas amostras sonoras. Para acompanhar tudo o que se relaciona com Jarrett devem acompanhar Olivier Bruchez que possui o melhor local na net sobre ele.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Gaiteiros de Lisboa

São simplesmente fantásticos. Conseguem pegar numa melodia tradicional das mais simples e transformá-la numa contrução melódica-harmónica-tímbrica-etc ímpar. São simplesmente fantásticos. Escolhi bem a minha prenda de natal (o álbum chama-se Sátiro), que por motivos de doença só agora estou a apreciar. Não percam tempo com imitações, como dizia o Godinho... Se apreciam as nossas raízes culturais oiçam estes Gaiteiros.

domingo, outubro 28, 2007

Pat Metheny

Novo álbum só sai em Janeiro mas já há novidades no site do homem... diz que é uma espécie de concurso...

quinta-feira, outubro 25, 2007

David Sylvian

canções dolorosas mas reconfortantes. sinto-as assim.
sala cheia
as palavras em primeiro plano, mas sempre com um apurado trabalho de construção musical sob (e sobre) elas.
Theatro Circo em Braga
sobressai a capacidade reconstructiva: Ghosts estava irreconhcível, não fossem as palavras
assim vale a pena comprar um bilhete - ouvir o que ainda não se ouviu nem se podia ter ouvido
não podia ser arrebatador, pofrque já não tenho idade para arrebatamentos com canções pop, mas é uma sensação única ir ouvindo sons novos e de repente acordar dentro de uma canção como Ghosts,
ou começar a noite com Wonderful World
terminar com Wanderlust - minha pérola preferida do catálogo sylvian - foi perfeito.
folguei verificar que gente distinta que faz música em portugal lá estava também... Hélder e Manuela dos Clã, Adolfo dos Mão Morta, Guedes dos Blind Zero... mas o lobby não era o meu espaço
eram as canções
quem me dera criar canções assim!

quinta-feira, agosto 16, 2007

Clássicos em agosto

Paddy McAloon
Um escritor de canções que construiu uma carreira de compositor (em detrimento da vertente homem-de-espectáculo) sem nunca deixar de escrever excelentes canções. Paddy McAloon, aqui com um look Wyatt, aqui duas décadas mais novo, tem um sentido melódico ímpar, consegue envolver as canções que compõe em trajectos melódicos inovadores entre contextos harmónicos ora simples, ora arrojados, mas sempre agradáveis a qualquer ouvido. O balançar entre a tradição da canção americana e as raízes celtas salta para primeiro plano. Deixo aqui um dos primeiros êxitos da carreira dos Prefab Sprout, nome colectivo da maioria da sua produção musical.

domingo, julho 15, 2007

QOTSA

Mas estes tipos são mesmo duros. Este rock não é para qualquer ouvido. Nem consigo compreender como é que o meu (o ouvido claro) depois de ouvir uma sonata de Schubert consegue vibrar com esta barulheira. A verdade é que gosto mesmo deste rock... embora passe à frente algumas canções menos inspiradas. O que passa na MTV2 (Sick sick sick) não mostra tudo o que vale esta banda. Este rock é realmente inovador. Estava há muito cansado de imitações baratas dos zeppelin e dos stones. Agrada-me particularmente o ritmo e a forma como as guitarras acompanham e constroem o próprio ritmo. Algumas canções são mais quadradas, mas... as pentagonais são excelentes!!! Se não conhecem, corram!

Bloc Party

Não! Já não escuto muito rock ou pop-rock... mas liguei a mtv2 estes dias e apanhei estes tipos (de sotaque britânico) a fazer um rock delicioso. Para quem já não atura Kaiser chiefs e outras bandas sobrevalorizadas e ainda não conhecem... cliquem aqui: BLOC PARTY!

sexta-feira, junho 22, 2007

Analisar Zappa


Analisar Zappa é difícil. Não está ao alcance de todos os que apreciam a sua música. Mas a generosidade de alguns e a democracia (anarquia?) global que se chama internet tornam possível partilhar algumas reflexões. Veja-se este sítio!


Estas duas imagens (dois compassos de «Shut up and play your guitar») retiradas desse sítio servem de mote para uma nota importante: um músico quando toca raramente (ou mesmo nunca) imagina a sua música numa pauta. Estas notas não foram pensadas por zappa. Ele simplesmente tocou as cordas de uma guitarra com determinados movimentos.
Obviamente comunicar os sons que resultaram daí, sem recorrer a uma gravação, implica notar esses sons, isto é, transcrever os sons para uma linguagem escrita. Mas esta linguagem é artificial. Saber se esta linguagem descreve verdadeiramente os sons que zappa produziu é um problema semelhante a saber se a física e a química descrevem realmente o que se passa no mundo. Podem servir para nos entendermos, prevermos e alterarmos fenómenos (sonoros, metereológicos, etc.).
Mas serão espelhos do mundo? Vias directas de acesso a ele? Duvido.
Serão as linguagens apenas mapas que nos orientam na ausência da sensação directa do mundo?
Na música é fácil compreender que sim. A pauta orienta um executante.
Senão é assim, temos que perguntar onde está a obra de arte «Shut up...»? No cd que comprei uns dias atrás, ou nas transcrições do Steve Vai? Ou já não existe (existiu efemeramente enquanto zappa tocava) e temos apenas cópias dessa obra de arte?

domingo, junho 17, 2007

Zappa

Comprei o shut up... e realmente parece impossível como se fazia música com esta qualidade já nos anos setenta... agora há muitos herdeiros a labutar muito bem (Belew, Vai, Kenealy,...), mas naquele tempo solar como quem fala era raro. Acrescento também a produção. O trabalho sobre o som (egocentricamente focado na guitarra de zappa) é excelente. A construção do próprio som da guitarra é fantástica... as nuances de solo para solo adequadas às frases que se pretendem produzir... excelente. Clique aqui para uma pequena amostra.

sábado, abril 21, 2007

Andrew Hill

O blog Jazz no país do improviso noticia o falecimento de Andrew Hill.
A música ficou mais pobre. Ficamos todos mais pobres.

o «engraçadinho» novamente

O «meloso» em acção

Crítica da crítica

ontem pasmei!
um JB que escreve no público adjectivou um dos pianistas «top ten» do jazz mundial com as seguintes expressões:
«meloso»
«chato como sempre»
«engraçadinho que sabe dar notas»
Não gostar do tal pianista é legítimo. Enquanto alguns afirmam que será sucessor de Keith Jarrett outros dizem que Jason Moran é bastante melhor do que ele. Mas, usar aquelas expressões parece-me que diminui quem as escreve aos olhos do público leitor.
Onde está a análise crítica da sua prestação? Em que critérios se baseia JB para o definir como meloso?
Há hoje um debate enorme sobre a crítica (ver, por exemplo, o que escreveu Eduardo Prado Coelho recentemente no público). Mas o problema é complexo:
1) é a falta de formação musical de quem fala sobre música, a falta de formação literária de quem fala de literatura, etc...;
2) é a incapacidade de analisar imparcialmente um trabalho;
3) é a incapacidade de enquadrar um trabalho artístico na história de uma disciplina, ou corrente;
Não será preciso exigir mais qualificação a quem escreve sobre arte?
Não será preciso exigir mais conhecimento a quem escreve sobre arte?
Já agora, Não será de esperar mais educação a quem escreve sobre arte?
Não conheço JB! Mas tenho muitas saudades do Fernando Magalhães!!!

sábado, dezembro 30, 2006

Brad Mehldau...

... afinal não toca na cdm como se anuncia no seu site, é no Theatro Circo em Braga!
Obrigado pela informação, Sérgio!

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Duas ofertas de Natal antecipadas

Metheny e Mehldau combinam sons de dois instrumentos harmónicos. quem esperasse confusão ou conflito esperou mal. quando Metheny fala com melodias de Mehldau este ouve e vice-versa. os egos ficaram na portaria do estúdio. repare-se também na escolha de timbres por parte de Metheny e Mehldau. um troca de guitarra ou introduz o sintetizador de guitarra... outro fá-lo só com os dedos. um altera fraseados, arpejos, ... outro acompanha impecavelmente cada som das cordas dedilhadas com percussões soberbas nas outras cordas... ena! já abusei dos adjectivos
site de Mehldau anuncia concerto solo para ccb e cdm

outra oferta que chegou antecipada foi o dvd de Jeff Buckley - Live in Chicago
Quando comprei Grace fiquei siderado com aquele tipo. tinhamos escritor de canções, arranjador, cantador de outras canções... a sua morte foi uma perda. no rock poucos desaparecimentos se podem chorar como o dele

segunda-feira, novembro 13, 2006

Jarrett - Peacock - DeJohnette

Jarrett não desiludiu. mas não voou. entrou muito cerebral e só nos encores se libertou um pouco após perceber que tinha a plateia rendida. experimentou várias vezes improvisar sobre os seus típicos ostinatos, mas cancelou sempre essas tentativas sem levantar voo. a noite era de reencontro, não de paixão. a noite foi de Peacock. mestre sábio das cordas, dos momentos, das pausas, das frases, da alegria dos seus setenta anos, a alegria de viver que só tem quem já viveu mais do que tem para viver, mestre do sorriso largo que trouxe equilíbrio ao concerto. DeJohnette foi contido mas perfeito, mesmo quando arranja o prato de choque descalibrado consegue fazer música. a energia que aquele homem tem contida e libertada com conta peso e medida. é o mais poético dos bateristas jazz. Jarrett. trouxe standards e não free. ainda bem. era de calcular. 25 anos sem contactar o público não dá confiança para o despojamento e a entrega necessária à performance sem estrutura prévia. as pautas e apontamentos acondicionadas pelo staff na estante de peacock e na de jarrett confirmavam a escolha óbvia de construir música sobre standards. cada melodia é harmonia, e as harmonias são melodias. vide entrada de when I fall in love, idêntica à gravação de Paris. para lisboa sobrou uma cadência final original e lindíssima. já jarrett tinha percebido que portugal gosta dele. talvez seja este ano a vez de Espanha figurar nas gravações dele. o trabalho de algumas peças pareceu indicar preparação para concerto inspirado dentro de dias em Barcelona.
foi ontem e já há saudade. volte depressa assim queiram os promotores, a sala cheia enchia duas três quatro vezes... valeu a pena.
venha o hancock.

quinta-feira, novembro 09, 2006

é domingo...

espero tudo. espero música boa e menos boa. espero os gemidos que destoam um pouco e as melodias inesquecíveis sobre as harmonias mais improváveis. espero chegar lá bem (a viagem é longa) e voltar melhor. espero escutar o que paris escutou em 99. ou nem por isso. espero apenas escutar. espero o fim da espera. e espero ainda ter vontade de ir trabalhar na segunda bem cedo.

domingo, outubro 29, 2006

Sérgio

com o dia doze aí a chegar, chegou entretanto um novo godinho.
pela amostra radiofónica é vintage - veremos.

terça-feira, agosto 29, 2006

Jarrett no «You Tube»

Dois links para ir abrindo o apetite para o acontecimento musical do ano. Um a solo (já da década de setenta) e outro em trio como o veremos cá.

segunda-feira, junho 19, 2006

Keith Jarrett


Expresso noticia que Keith Jarrett vem em Novembro ao CCB com o seu trio.



...



...



... nunca mais chega Novembro ...



...

quinta-feira, maio 04, 2006

«Quando é arte?»

"A literatura da estética está atafulhada com tentativas desesperadas para responder à questão «O que é arte?» Esta questão, muitas vezes irremediavelmente confundida com a questão «o que é boa arte?», é crucial no caso da arte encontrada – a pedra apanhada na entrada da garagem e exposta num museu – e agrava-se ainda mais pela promoção das chamadas arte ambiental e arte conceptual. O pára-lamas amachucado de um carro numa galeria de arte é uma obra de arte? E como considerar algo que nem é sequer um objecto, e não está exposto numa galeria de arte nem num museu – por exemplo, o escavar e encher um buraco no Central Park como prescrito por Oldenburg? Se estas são obras de arte, então todas as pedras nas entradas das garagens, todos os objectos e acontecimentos são obras de arte? Se não o são, o que distingue aquilo que é daquilo que não é uma obra de arte? O facto de estar exposto num museu ou numa galeria? Nenhuma destas respostas faz prevalecer qualquer convicção.

Como observei no início, parte da dificuldade reside em perguntar a questão errada – em não conseguir reconhecer que uma coisa pode funcionar como obra de arte em certos momentos e não noutros. Nos casos cruciais, a verdadeira questão não é «Quais os objectos que são (permanentemente) obras de arte?» mas «Quando é que um objecto é uma obra de arte?» – ou mais brevemente «Quando é arte?»

A minha resposta é que exactamente como um objecto pode ser um símbolo – por exemplo, uma amostra – em certos momentos e em certas circunstâncias e não noutras, assim um objecto pode ser uma obra de arte em certos momentos e não noutros. Na realidade, exactamente por funcionar, e enquanto funcionar, de determinado modo como um símbolo, um objecto torna-se uma obra de arte. A pedra normalmente não é nenhuma obra de arte enquanto está na entrada da garagem, mas pode ser tal quando exposta num museu de arte. Na entrada da garagem, ela não realiza habitualmente nenhuma função simbólica. No museu, ela exemplifica algumas das suas propriedades – e.g. propriedades de forma, cor, textura, etc. – O abrir e fechar do buraco funciona como uma obra enquanto a nossa atenção está dirigida para isso enquanto símbolo exemplificativo. Por outro lado, uma pintura de Rembrandt pode cessar de funcionar como uma obra de arte quando usada para substituir uma janela quebrada ou quando usada como coberta."

Nelson Goodman, in Modos de fazer mundos, ASA, pp. 113,114.

segunda-feira, abril 03, 2006

Bernardo Sassetti

Esperar é uma virtude em desuso. Porque é difícil. Porque o mundo é rápido. Porque todos exigem tudo para já. Porque já poucos sabem sentir o prazer da conquista sofrida e dolorosa. Aquela conquista que apenas o tempo traz.
Entre esses poucos estão os músicos. Os pianistas. Como Sassetti. Esperar por ele foi difícil. Já sabíamos que era muito bom. Talentoso. Dotado. Trabalhador. Mas tivemos que esperar pelo seu lado trabalhador que durante anos acumulou horas de trabalho e dedicação. Horas de palco e de solidão de ensaio e estudo... para em pouco tempo termos disponíveis alguns registos de qualidade universal. Sim, porque nem os melhores (Mehldau e Jarrett) ouviriam com sobranceria estes álbuns de Sassetti. Julgo eu. Tenho absorvido avidamente todos os sons de «Indigo», «Nocturno» e «Ascent» e considero-os dignos de qualquer palco e de qualquer etiqueta discográfica clássica. Aconselho a urgente audição destes registos, obviamente, a quem gosta de piano. Não necessariamente de jazz. O Jazz está lá com maiúscula, não fosse Monk uma das influências maiores sobre Sassetti. Mas está lá o piano contido (o piano lisboeta... o piano «fado») que pode servir de introdução aos ouvidos menos treinados no swing. Ou aversos a ele!
Comecem por Indigo.
A clean feed está de parabéns pela aposta na música portuguesa. Pelo risco que isso comporta. Pelo simples facto de existir uma editora especializada em música jazz em portugal. Só a sua existência é uma vitória. Bem hajam.

sábado, janeiro 21, 2006

Robyn Hitchcock & The Soft Boys

Começo o ano a descobrir Robyn Hitchcock.
  • Primeira referência: lembrança de uma cassete vhs (gravado por um amigo na 2 à muito muito tempo) com um concerto-filme. Os discursos introdutórios às canções ficaram na memória.
  • Segunda referência: uma versão de um clássico de Syd Barrett (archive) «Gigolo Aunt» realizada pela sua banda The Soft Boys. Quem gosta de Syd Barrett (vh1 link) tem sempre qualquer coisa a dar musicalmente (Ver a propósito grupo de discussão Vegetable Friends dedicado a Barret e a Hitchcock). Outra versão de referência: Bob Dylan, «Shelter from the storm».
  • Terceira referência: uma canção chamada DeChirico Street do album Moss Elixir. Quem aprecia a pintura de DeChirico tem sempre qualquer coisa de relevante a dizer sobre o mundo.
  • Quarta referência: um músico que se faz valer de uma guitarra e de umas canções e enfrenta o público com estas armas merece uma audição. No mundo da música actual em que a tecnologia consegue milagres, ver um artesão do rock'n'roll à antiga é uma raridade a aproveitar.
  • Sugestão 1 : Mr Kennedy canção do último álbum dos The Soft Boys, «Nextdoorland». Musicalmente agradável. Com palavras despretensiosas. À espera da chuva que talvez caia esta noite.
  • Sugestão 2 : «Obliteration pie», ou «Spooked», últimas peças deste artesão.
Foto por Carina Jirsch, actuação no Shepherd's Bush Empire, Londres em 11/22/2005

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Dezembro

Estive com nine horses nos ouvidos.
A confirmação do melhor som Sylvian.
Aconselhável para qualquer prenda de Natal sensível, poética e inovadora. Afinal, Sylvian não é mainstream.
E ainda bem!!!
Sugestões para ofertas natalícias: The sea and cake, e Tortoise.
Para lá das convenções sonoras que nos esmagam os sentidos e petrificam os sentimentos, verdadeiros sons abertos,
que esperam compreensão, não a oferecem
que exigem calma, não apressam

quarta-feira, novembro 02, 2005

Novo conceito editorial

Vale a pena procurar no catálogo da magnatune algum álbum que nos interesse. É uma procura diferente pois não precisamos de recorrer a métodos menos éticos, já que temos acesso a todos os albuns na íntegra via download, embora com uma qualidade inferior ao álbum «real». Depois de analisarmos, optamos por comprar ou não. É o open source a chegar à música... lentamente. A época medieval está mesmo perto do fim.

terça-feira, novembro 01, 2005

Todos os Santos

Dia triste para quem perdeu alguém. As tradições fazem-nos lembrar sentimentos e emoções. Ligações! Lembrei-me de ouvir Pat Metheny, mas preferi - não sei porquê - colocar um cd de Kurt Rosenwinkel. A memória não é nada se não a projectarmos para o futuro. Este Kurt vale a pena ser ouvido. Não é que Pat esteja ausente do futuro, mas hoje lembro-me de tristezas que apenas se amenizam olhando o futuro. Sei que Kurt tem esse som: o som do futuro. No jazz em guitarra.
Continuo à espera dos Nine Horses. Ansiosamente. Todos os sons não chegam à altura do som que se espera e que não se tem.

quarta-feira, outubro 05, 2005

Nine Horses
















David Sylvian, Steve Jansen e Burnt Friedman construiram este projecto sonoro. Um álbum que desejo conhecer ardentemente. Esperemos que esteja à altura de Sylvian. E ele já fez coisas magníficas. Forbidden Colours com Sakamoto, o inexplicavelmente subvalorizado álbum Dead Bees on a Cake, são exemplos da melhor pop que se fez até hoje. No último Blemish Sylvian guinou para um som mais arrojado e difícil de interiorizar por ouvidos formatados no pop-rock mainstream. Mas a poesia da voz (e das palavras) permanece lá. Inigualável.

quarta-feira, setembro 28, 2005

Destaque

No álbum «Punishing Kiss», a canção «The case continues», escrita por Joby Talbot e Neil Hannon para Ute. Vale pela poesia das palavras e pelo arrojo do acompanhamento em vagas repetidas com intensidade e sofreguidão. Afinal é uma música pop. E tem tanta angústia dentro dela.

Punishing Kiss/But one day

«Punishing Kiss» Um album fabuloso. Delicado e profundo. Aqui Ute Lemper afasta-se um pouco da música teatral e aflora o pop-rock (canta Cave e Neil Hannon por exemplo) com uma segurança e destreza ímpares. O mais recente «But one day» retoma o som típico de Ute embora cada vez mais refinado. Boa produção musical, bons músicos e uma voz divinal. Duas pérolas. Dois dos poucos discos que valem os 20€ que normalmente custam.

terça-feira, setembro 13, 2005

Heavy? Pós-Heavy???

Sons pesados (?) há muitos, mas quase todos intragáveis. O Rock mais barulhento é um embuste. Quase generalizado. De quando em vez surge alguém que acrescenta algo de novo a esse universo sonoro. Uns Faith No More, uns Queens Of The Stone Age, ... mas os clássicos raramente são ultrapassados. Ou respeitados. Devia ser obrigatório uma disciplina de cultura musical nas escolas. Quem não conhece Deep Purple, Led Zeppelin, Rolling Stones ou os Queen dos anos 70 (por exemplo) não pode ter uma perspectiva clara da música que se faz hoje com guitarras. Pode gostar de muitas bandas medíocres, mas deve ter cautela quando as endeusa. Pode fazer figura de parvo.
A descobrir agora com urgência pelos adeptos dos sons carregados de distorção existem umas bandas que alguns apelidam de pós-heavy, tal como existe um pós-rock... Etiquetas mal forjadas para sons que não se deixam catalogar. São bandas que se caracterizão por não cair nos conceitos típicos de canção, ou de composição pop-rock clássica: verso-refrão com variações. Privilegiam na maioria melodias e soluções ousadas ao nível de efeitos e de instrumentação.
Oiçam Pelican, Tristeza e Red Sparowes. Não vão descobrir mais do mesmo. O som é áspero às vezes, mas também é delicado. Os Pelican estão mais perto dos tradicionais conceitos sonoros do heavy metal, mas são todos bons exemplos de como ser criativo no panorama «pronto-a-consumir» que domina a música. E não me refiro apenas ao maistream. Na música dita alternativa existe muita música pobre. É a clássica diferença entre ser simples e simplório.

segunda-feira, setembro 12, 2005

Keith Jarrett

Senhor de muitos sons, Keith Jarrett é, ainda, o melhor. Basta ouvir «Radiance», o seu último disco editado. Desde o belíssimo La scala que não tinhamos registo novo a solo. Acompanhado por Jack Dejohnnette e por Gary Peacock tem editado alguns dos melhores discos jazz de sempre. Whisper Not ainda não saiu da minha memória - escute-se o clássico Poinciana (e já agora, a versão de Ahmad Jammal, uma das inspirações de Jarrett).
E Portugal não arranja forma de o trazer cá. Nem a inauguração de um edifício como a casa da música serve de pretexto para investir na vinda do maior pianista jazz.
Eu invisto os meus ouvidos nele. E aconselho todos a fazer o mesmo. O retorno é garantido. E radiante!!!

(Agradeço a foto ao autor e ao site jazzitalia.net)

quinta-feira, setembro 01, 2005

World Citizen (Sylvian/Sakamoto)

World Citizen
(Words by David Sylvian)

There goes one baby's life
It's such a small amount
She's un-American
I guess it doesn't count

Six thousand children's lives
Were simply thrown away
Lost without medicine
Inside of thirty days

In the New York harbour
Where the stock's withheld
It was the price we paid
For a safer world

World is suffering
World is suffering
World is suffering
World citizen

In Madhya Pradesh
Where they're building dams
They're displacing native people
From their homes and lands

So they hunger strike
Cos they believe they count
To lose a single life
Is such a small amount

In the name of progress
And democracy
The concepts represented in name only

His world is suffering
Her world is suffering
Their world is suffering
World citizen

World citizen

And the buildings fall
In a cloud of dust
And we ask ourselves
How could they hate us?
Well, when we live in ignorance and luxury
While our super powers practice
Puppet mastery

We raise the men
Who run the fascist states
And we sell them arms
So they maintain their place

We turn our backs
On the things they done
Their human rights record
And the guns they run

His world is suffering
Her world is suffering
Their world is suffering
World citizen

My world is suffering
Your world is suffering
Our world is suffering
World citizen

Who'll do away with flags?
Who'll do us proud?
Remove the money from their pockets
Scream dissent out loud?

Cos god ain't on our side
The shoe won't fit
And though they think the war is won
That's not the last of it

Disenfranchised people
Need their voices heard
And if no one stops to listen
Lose their faith in words

And violence rises
When all hope is lost
Who'll embrace the human spirit
And absorb the cost?

Not one life is taken
In my name
In my name

His world is suffering
Her world is suffering
Their world is suffering
World citizen

My world is suffering
Your world is suffering
Our world is suffering
World citizen


© 2003 by David Sylvian/Opium (Arts) Ltd

Coragem para descobrir clássicos

Andar anos a fio a ler elogios a um autor e nunca ter coragem de o ouvir não é o meu feitio. Mas com o Robert Wyatt foi isso que aconteceu. Não cometam o mesmo erro.

quarta-feira, julho 27, 2005

Elvis & Carlos

Reparei que na página da amazon o Elvis Costello recomenda alguns discos entre os quais um que todos nós conhecemos (ou devíamos conhecer):

'Guitarra Portuguesa', Carlos Paredes
«I was given this album recently during my first visit to Portugal in twenty-five years. Now I know what I've been missing; mysterious, delicate melodies and incredible playing.» Elvis Costello

Elvis & Burt

Elvis Costello é um dos músicos mais inteligentes do panorama internacional da música popular. foi capaz de aprender ao longo dos anos, sozinho e acompanhado, a melhorar as suas qualidades. A maioria dos músicos limita-se a reproduzir algo engraçado que aprenderam um pouco por acaso. Desde a colaboração com Paul McCartney (repartida por dois álbuns, Flowers in the dirt em nome do ex-Beatle e Spike em nome de Elvis) até ao último Il Sogno, Elvis tem mostrado a sua evolução musical indiscutível, quer como compositor, quer como produtor, arranjador, etc. Veja-se o sublime album com Anne Sofie Von Otter que Elvis geriu musicalmente de forma imaculada.
Até o álbum Delivery man, que saiu ao mesmo tempo de Il Sogno, que retoma a vertente mais áspera da música de Costello, já mostra a mestria em gerir silêncios e explosões sonoras mais ou menos ruidosas. A própria estrutura rítmica das canções é muito mais complexa e variada. Uma delícia para ouvidos habituados a sons adstringentes.
Mas a minha sugestão é ouvir o álbum que Elvis construiu a meias com o grande Burt Bacharach. Painted from memory. Lembro-me de Elvis ter confidenciado numa entrevista que uma das coisas que aprendeu com Burt foi a de ter calma ao compôr canções. Calma no sentido de não se apressar a dar ao ouvinte tudo de uma vez. Se temos uma melodia bonita, para quê desperdiçá-la no primeiro minuto da canção. Façamos uma introdução, um verso, outro, uma ponte, um novo verso, ... sei lá. Preparemos com cuidado a apresentação da melodia que pretendemos que seja o cerne da canção. A lição que ele aprendeu eu aprendi-a também por via dele (Bandura chamaria a isto aprendizagem vicariante).
Reparem na foto da capa do álbum. Quem já teve aulas de música reconhece imediatamente esta imagem como a do mestre que explica ao discípulo como aperfeiçoar algo na sua prestação. A humildade musical deste homem chega a este ponto. Mostrar-se na capa de um álbum como mero aprendiz.

terça-feira, julho 12, 2005

Zorn2

Outra porta de entrada é a reconstrução de temas escritos por Zorn para os MASADA por três guitarristas de eleição: Marc Ribot, Bill Frisell e Tim Sparks. Também para ouvidos calmos e pacientes.

domingo, julho 10, 2005

Zorn

Capaz de surpreender a cada som JOHN ZORN é um dos criadores musicais mais interessantes da actualidade. Enigmático, pois não dá muitas entrevistas, deixa o seu trabalho (e algumas notas que os acampanham) explicar-se por si próprio. Já fez muita coisa muito barulhenta, esquisita, dificil de ouvir, etc. Mas tem nos dado alguns álbuns calmos e introspectivos. Aliás, ele é um músico verdadeiramente prolixo. Chega a editar 6 albuns por ano. Dono da sua própria editora (TZADIK), e consequentemente do seu próprio trabalho, é verdadeiramene um espírito musical livre e produtivo. A sua obra divide-se em várias áreas, desde os grupos MASADA e NAKED CITY, até às sua bandas sonoras para filmes e documentários. Recomendo o último (ainda será o último? Julgo que não. Segundo a página da TZADIK, parece que já existe um volume 16 desta série) álbum da série Filmworks - Protocols of Zion (lançado em Fevereiro deste ano). O som é destinado a um documentário sobre o aumento do anti-semitismo após o 11 de setembro. Tem o Zorn nos pianos eléctricos, Cyro Baptista nas percussões e Shanir Ezra Blumenkranz no baixo e no Oud (instrumento semelhante ao alaúde europeu, mas de tradição árabe). É uma delícia de som. Recomendo vivamente para introdução ao período de descanso que se aproxima.

sexta-feira, julho 08, 2005

Jazz

Uma nota positiva, bem positiva, para a colecção jazz no público. Quem quiser conhecer o jazz, a sua história e a sua riqueza tem aqui um bom começo. A organização em nomes de músicos incontornáveis e em instrumentos parece-me bastante acertada, pois permite ter uma visão mais alargada de todos os músicos que fizeram a história do jazz, e que de outra forma seriam preteridos pelos grandes nomes incontornáveis.

quarta-feira, julho 06, 2005

Perry Blake

Autor e cantor (songwriter, cantautor, ...) nascido na Irlanda e radicado em Londres. Adora David Sylvian como eu. E deu-nos o privilégio de conhecer em primeira mão o seu último álbum «The crying room» através da fnac. O cd vem a acompanhar um livro com os poemas das suas canções (em edição bilingue). A versão Portuguesa é de Paula Lourenço e a edição é da Quasi.
Está a revelar-se uma descoberta. Para ouvidos calmos e pacientes.

Miles

Antes de se encontrar com Coltrane, Miles neste album cool dialogou com Gerry Mulligan (barítono) e Lee Konitz (alto). Atentar nos temas de Mulligan. Ou em Moon dreams de Mercer. Ou em... etc. Pura beleza.
Note-se que os arranjos estiveram a cargo dos senhores John Lewis (que também esteve ao piano), Gil Evans e do próprio Mulligan.
Uma das grandes chaves dos génios é saberem rodear-se de assaliarados geniais. Miles fez escola nesta arte.

Clássicos

Miles Davis é essencial. (Re)Descubro «Birth of the cool» numa reedição de 98 com sessões ao vivo não incluídos no LP original. Está lá quase tudo. Clareza. Melodia. Ritmo. Harmonia. Invenção. Pensem num item essencial à boa música e de certeza que o encontram lá.
Obrigatório para quem gosta de jazz, e para quem o quer conhecer.

domingo, julho 03, 2005

LIVE8 - o que faltou...

... foi uma jam session entre os scissors sisters e os pink floyd. Juro que ainda esperei por uma brincadeira dessas de tarde quando as irmãs entraram em palco. Até porque Gilmour e Waters gostaram da versão que eles fizeram de comfortably numb.

Sir Paul

Reparam na energia que Sir Paul debitou no fnal do Live8? Será que os ouvidos mais atentos não constataram que ele escolheu um reportório capaz de manter o final vivo e energético, sem cair na tradicional lamechisse das melodias bonitas que todos sabemos de cor? Eu sei. O lalala mais enjoativo da história musical estava lá. Mas era obrigatório. E a escolha de The long and winding road também me pareceu óbviamente bem escolhida. O apelo à participação na marcha de quarta feira tinha que tocar os corações. Mas helter skelter ninguém esperava. E mostra bem à juventude de hoje que a maioria das porcarias em que gastam rios de dinheiro (ou créditos de download) são cópias baratas do rock de outros tempos. Faltaram lá os Zeppelin e o embuste do rock actual ficava desmascarado de vez.

Pink Floyd3

Foi verdade. Estavam os quatro velhotes em palco. E o mais animado até parecia ser o Roger Waters. Talvez saudades... Eu, que sou novo demais, nunca os tinha visto juntos ao vivo, e não fiquei desiludido. As gargantas ainda tem força, e as falhas de qualidade vocal nem se comparam com outras de outros artistas que mostraram como maravilhosa é a tecnologia musical. Foram 20m muito curtos. Apenas quatro canções. Previsíveis. Embora qualquer outro conjuto de quatro fosse também previsível. O reportório é vasto e de qualidade. Não sei se houve abraço no final porque a emissão passou rapidamente para outro dinaussauro bem vivo: Stevie Wonder (Foram só duas canções mas valeram por mil). Se houve, então podemos sonhar com outros concertos.
Como fã gostava que este encontro potenciasse outros, mas julgo que parte da força desta aparição de sábado reside exactamente na sua irrepetibilidade.

sexta-feira, julho 01, 2005

terça-feira, junho 28, 2005

segunda-feira, junho 13, 2005

Pink Floyd2

... pena Fernando que não possas sentir a alegria deste reencontro e a desconfiança relativamente aos seus resultados... sorte madrasta!

Pink Floyd

Eis que para pressionar o G8 a perdoar a dívida ao terceiro mundo, Bob Geldof conseguiu que Roger Waters e David Gilmour enterrassem divergências antigas e aceitassem reunir de novo a formação clássica dos Pink Floyd que fez história no chamado Rock Progressivo e que para muitos, incluindo para mim, foi responsável pela formatação dos padrões estéticos de análise de toda a música rock. Pena é que me parece ser concerto único e com poucas hipóteses de ter como sequela uma reconciliação. Waters procura promover o seu album Ça Ira que sai em Setembro e Gilmour procura fazer alguma boa música para variar. O ego de Waters é demasiado grande para cedências musicais e o de Gilmour está como o David... demasiado gordo... Voltaremos a eles aqui neste blog.
Mesmo com os ses e mas é um acontecimento. Pela primeira vez desde que eu sou fã dos Pink eles tocam juntos tal como eu me habituei a ver em imagens arqueológicas dos 70. Boa Bob. Assim já nem quero saber da dívida do terceiro mundo. Por mim, já está paga!

Mertens

Cá está o Belga outra vez. É já na quarta em Famalicão. Fica aqui ao lado. E eu ainda sem bilhete. Se conseguir arranjar um, contem com mais palavras sobre música.

sexta-feira, junho 10, 2005

Pat

  • Pat Metheny é um artista com qualidades ímpares. A guitarra limpa de efeitos ruidosos (e camufladores de incompetências várias) consegue a proeza maior de «cantar». É esse, julgo, o grande desafio de qualquer instrumentista, e que marca a fronteira entre o sideman e o solista: fazer o instrumento cantar. A maior parte dos músicos faz os seus intrumentos soar. Fazer-nos sentir (diria, criar em nós mas hoje não me apetece filosofar) sons e esquecer que não provêm de uma voz, mas sim de um instrumento a soar. Pat consegue-o na guitarra eléctrica, mas também na acústica. Refrências maiores do seu reportório: os anos ECM e os últimos dois álbuns. Este últimos são soberbos exempos das suas facetas. Um, a solo com uma guitarra barítono afinada de forma pouco usual (One quiet night), transporta-nos para o mundo solitário do artista: o homem e o seu instrumento em trabalho sofrido sobre os sons. O mais recente (The way up) é uma autêntica sinfonia jazz-rock. Dividia em 4 partes, está magistralmente construida. Mas aqui conta com a parceria de Lyle Mays, companheiro de longa data, grande «teclador» e mestre de composição. Muito do que é Metheny deve-se a este senhor também. Com o seu grupo Pat é outro. É muito bom.
  • É este último álbum que serve de pretexto para a sua visita cá ao fim do mundo. Imperdível para todos os amantes de música. Mesmo para quem não conhece o sujeito. Vai ser um S. João em cheio.

    domingo, junho 05, 2005

    e. e. cummings (sobre música, digo eu!)

    since feeling is first
    Who pays any attention
    to the syntax of things
    will never wholly kiss you

    (já que sentir é primeiro
    quem presta alguma atenção
    à sintaxe das coisas
    nunca há-de beijar-te por inteiro)


    e. e. cummings, xix poemas, tr. Jorge Fazenda Lourenço, Assírio e Alvim, 1998, pp. 38,39.

    terça-feira, maio 24, 2005

    Wittgenstein sobre compreensão

    «Apreciar música é uma manifestação da vida da humanidade. Como é que a poderíamos descrever a alguém? Bem, suponho que teríamos, primeiro, de descrever a música. Em seguida, podíamos descrever o modo como os seres humanos se comportam diante dela. Mas será isso tudo o que necessitamos de fazer, ou é igualmente necessário ensinar-lhe a compreendê-la por si próprio? Bem, levá-lo à compreensão ensinar-lhe-á num outro sentido o que é a compreensão, mais do que uma explicação que tal não consegue. E ainda induzi-lo à compreensão da poesia ou da pintura pode contribuir para a explicação do que está implicado na compreensão da música.»
    Wittgenstein, Cultura e valor, tr. Jorge Mendes, Edições 70, p.106

    segunda-feira, maio 23, 2005

    Sobre (os dois) Wittgenstein

    Para saber mais sobre Wittgenstein esta entrada na Stanford Encyclopedia of Philosophy pode ser uma ajuda:
  • Wittgenstein
  • Wittgenstein sobre «o belo» e «o bonito» 2

    «Se digo que A tem os olhos bonitos, alguém pode perguntar-me: que é que há de bonito nos olhos de A, e eu talvez responda: a forma amendoada, as pestanas compridas, as pálpebras delicadas. O que é que estes olhos têm em comum com uma igreja gótica que também considero bela? Deveria dizer que me provocam uma impressão semelhante? E se dissesse que em ambos os casos as minhas mãos se sentem tentadas a desenhá-los? Isso seria de qualquer maneira uma definição restrita do belo.»
    Wittgenstein, Cultura e valor, tr. Jorge Mendes, Edições 70, p. 43

    Wittgenstein sobre «o belo» e «o bonito» 1

    «Se alguém diz, suponhamos, que "os olhos de A têm uma expressão mais bonita do que os de B", eu diria, nesse caso, que essa pessoa não está certamente a usar a palavra "bonito" para se referir ao que é comum a tudo o que chamamos bonito. Está, pelo contrário, a jogar com a palavra um jogo com limites bastantes estreitos. Mas o que é que isto revela? Teria eu presente alguma explicação restrita, particular, da palavra "bonito"? De modo nenhum. - Mas talvez não venha sequer a sentir-me disposto a comparar a beleza da expressão de um par de olhos com a beleza da forma do nariz.
    Assim, talvez devêssemos dizer: se existisse uma língua com duas palavras de modo a que não houvesse referência a algo de comum a tais casos, eu não teria dificuldade em usar uma destas duas palavras especiais para o meu caso e a minha intenção não seria empobrecida.»
    Wittgenstein, Cultura e valor, tr. Jorge Mendes, Edições 70, p. 43

    sexta-feira, maio 20, 2005

    Sobre palavras sobre sons

    É impossível não usar adjectivos ao analisar música. Mesmo que os consideremos «semelhanças familiares» wittgensteinianas e não categorias aristotélicas.
    Uma conclusão que alguns filósofos retiram das teses de Wittgenstein é a de que a crítica musical deveria ser apenas comparação de semelhanças e diferenças entre os objectos artísticos. Encaixá-los em categorias não é possível. É a rejeição do esquema aristotélico classificativo do real em géneros e espécies.
    «Esta música é bela!» Esta afirmação encaixa o objecto «esta música» no interior do conceito de Belo. O problema que depois de Wittgenstein não se pode ignorar é este: «como definir esse conceito de Belo?», «Que características deve ter um objecto para poder ser classificado de Belo?» (Mais problemático ainda: que características deve ter um objecto para ser considerado arte?).
    Uso portanto adjectivos sem com eles querer significar categorias. Portanto, se considero belo o album Duality de Lisa Gerrard e Pieter Bourke, e considero belo o album The Way up de Pat Metheny, não estou necessariamente a pensar na mesma beleza.
    Isto é, o uso da mesma palavra pode não corresponder à mesma sensação estética.
    Então para quê escrever sobre arte? Ou sobre outra coisa qualquer?
    Escrevendo fazemos comparações aproximadas entre os objectos que pretendemos nomear. E entre eles e certas qualidades.
    Um exemplo: Li no Expresso uma crítica sobre o album The Opiates de um grupo pop-rock norueguês chamado Anywhen. Corri imediatamente a comprar o album sem ter ouvido uma única nota. A tal crítica, por entre adjectivos, comparava aquela música a mais de uma dezena de artistas que eram do meu agrado (Sylvian, Cave, Cale, Cohen, ...). Curiosamente eu não relacionaria tão directamente aquela música com essas referências. Comparar não é definir inequivocamente. É apontar uma direcção vaga.
    Se tiveram paciência para este arrazoado pseudo-filosófico, espero que tenham também curiosidade para seguir algumas das minhas orientações.

    Duality

    Escolhi o album para abrir o blog porque era o album que estava a ouvir quando criei o Blog. Não existe nenhuma razão especial para ter sido este disco e não outro. Calhou.
    Este album possui duas preciosidades que constam da banda sonora do filme de Michael Mann «The insider» (O informador) com Al Pacino e Russell Crow nos principais papéis. Aliás a Banda sonora é também da responsabilidade da dupla Gerrard/Bourke, embora inclua peças musicais de outros músicos, como por exemplo Jan Garbarek ou os Massive Attack. As tais preciosidades são Tempest e Sacrifice. Já no contexto do filme são canções poderosas, isoladas da contaminação das imagens são ainda mais fortes e apelativas.
    Todo o album possui o registo que se espera de Lisa Gerrard: vocalizações enigmáticas sobre tapetes sonoros ora suaves, ora angustiantes. Sacrifice é mesmo uma canção obrigatória.
    The human game é o momento menos típico de Lisa Gerrard, porque se aproxima mais do mainstream da música popular. Mas é igualmente belo.
    A qualidade e a prudência do som de Bourke. Sim. Prudência também existe na música. A capacidade de não ferir o ouvido que escuta com banalidades ou com arrojos desprovidos de alicerces. A capacidade de não pisar ratoeiras que algum delírio artístico por vezes coloca em frente dos músicos. O comedido som tribal das percussões. Quase urbanas.
    A entoação do canto evocando tradições celtas e árabes. Aliás, o uso das diversas escalas (além da tradicional diatónica - usada à náusea pelo pop-rock mainstream) é uma das chaves do som vocal de Lisa. A transição de uma para outra como a coisa mais natural do mundo. A elevação da mais simples escala a uma qualidade harmónica pouco usual.
    Um album calmo, mas não relaxante como as tretas do chillout blábláblá....
    Um album com música para se reflectir sobre si próprio. Disse música, não disse palavras. A própria música faz-nos pensar. A mim faz. Oiçam e pensem.


    quinta-feira, maio 19, 2005

    musicareal

    Nasce hoje.
    Pode morrer amanhã! Mas o importante é que nasceu. E serve para dizer sobre música o que outros não dizem. Serve também para dizer o mesmo, se o mesmo for bem dito.
    Música!
    Não rock, não jazz, não clássica, não ...
    Apenas música.
    O Fernando, que era o único que eu lia, já não escreve. A sorte é madrasta. Das más!
    Já não escreve o Fernando e eu já não leio. Nada. Passei apenas a ouvir.
    E vou tentar escrever. Mas já li Wittgenstein. E escrever sobre arte depois de o ler é extremamente difícil. Mas não impossível.
    Comecemos por ouvir. As palavras que esperem.

    Que tal Lisa Gerrard e Pieter Bourke? O álbum Duality é um bom começo. Julgo.
    www.lisagerrard.com
    www.pieterbourke.com